Opinião: A um jovem jornalista

O embrião de conteúdos (ou apenas embrião) é um site concebido pelos (e para os) cursos do Coração Eucarístico da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas para divulgar a produção de alunos, ex-alunos, funcionários e professores da instituição.
 
Aqui são publicados trabalhos de todas as áreas da comunicação feitos por alunos, ex-alunos, professores e funcionários da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, nas seguintes modalidades: artigos científicos, campanhas de comunicação, crítica e produção cultural, eventos, cursos e seminários, textos de opinião e jornalísticos, fotografia, vídeo, rádio, projetos experimentais, sites e blogs.
 
Para enviar seu trabalho, basta digitalizá-lo e publicá-lo na web. Em seguida, envie para o portalembriao@gmail.com uma mensagem com a ficha técnica e sinopse de seu trabalho. Nossos professores avaliarão e publicarão aqui o que você fez!

Texto enviado por Maurício Lara, ex-professor da PUC Minas e colunista do jornal Estado de Minas

Como disse Chico Buarque, na música Juca, “delegado é bamba na delegacia, mas nunca fez samba, nunca viu Maria”. Pois quem acabou com a exigência do diploma para o exercício do jornalismo, tal e qual o delegado da música, pode saber tudo de leis, mas não tem idéia do que seja a alma de quem decide ganhar a vida contando os fatos da vida. Pois esse cara aí, que quer viver contando a vida, vai para a escola de jornalismo aprender técnicas, regras e normas de conduta, para exercer bem seu ofício.

Esse cara também vai para a escola encontrar, nas salas e nos corredores, montes de outros cidadãos que, como ele, escolheram aquele caminho. Nas salas e nos corredores, com os professores e mesmo sem eles, vão falar da profissão, de seus erros e acertos, de suas conveniências e inconveniências, de seus males e perigos, de suas frustrações e limitações, de suas dúvidas e significados.

Sozinho, o canudo é pouco, mas ele vale muito, porque unge um profissional que concilia talento, vocação e qualificação para praticar um ofício em que é muito mais fácil fazer o mal do que fazer o bem. Exercer o jornalismo sem exaustivas e cotidianas reflexões sobre o significado desse lugar na sociedade é como ser um cozinheiro que decorou a receita, mas não sabe medir, a tempo e a hora, os ingredientes; é como ser um costureiro que olha para o molde, mas não consegue adequar a roupa ao corpo que deve vestir.

O diploma de jornalista nada mais é do que a coroação de um processo que começa na infância, até de forma inconsciente, para chegar à escolha do curso e da profissão. Jornalista que se preza não resolve ser isso na vida de uma hora para outra. Dentro de casa, dá para saber qual menino tem em sua alma esse dom, quando ele atende ao telefone e anota os primeiros recados para a mãe e o pai. Recado de menino que vai ser jornalista é simples, de poucas palavras e fácil de ser entendido. Também, é sem erros gramaticais.

Esse menino do recado, longe de ser menino de recados, sai por aí crente que vai mudar o mundo. Depois, vê como a engrenagem é lenta e pesada, mas ele teima e continua, ainda que tenha mil motivos para desistir. No dia-a-dia da profissão, vai lidar com notícias que valem milhão e outras com bem menos cifrões, mas saberá dar a cada uma a importância que merece.

E vai saber contar com charme o que ele viu, às vezes, como preferia Nelson Rodrigues, até pelo buraco da fechadura. Na escola, no meio de seus iguais e orientado por outros jornalistas, vai aprender a discernir e a confiar em seu faro para encontrar a boa história. Vai, também, descobrir que os poros, além de olhos, nariz e ouvido, são um excelente caminho para exercitar a sensibilidade e deixar-se impregnar pelo fato.

Na hora de escrever, se tiver uma palavra simples e outra difícil, ele vai escolher a simples; se tiver duas palavras simples, vai escolher a menor. O seu texto, como diz o jornalista Humberto Werneck, vai ser igual a um macaco descendo da árvore, cheio de graça e leveza, porque o bom jornalista sabe que o maior desafio de um texto é ser lido.

O país vai continuar precisando de quem sabe ajuntar as palavras para formar frases e as frases para formar bons textos. E não pode abrir mão de gente que sabe, de fato, contar a vida com responsabilidade e compromisso com o direito da sociedade à informação. Esses são jornalistas. E os outros? Ah, os outros vão ficar por aí comemorando o fim da exigência do diploma.

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